Tenho amores de anteontem e nenhuma certeza. Beijei as bocas incertas antes da perfeição da tua e morri quando beijaste outro. Agora tenho só esperas e as derradeiras flores para entregar. Todas feitas das últimas delicadezas. Conheço as labaredas que queimam entre as coxas e as febres que tecem tua rede de sedução. Me afasto como o barco que faz a curva antes do cais, impedido de ancorar. E, amanhã, será apenas, questão de tempo...
Quem parte, explica. Quem volta apenas reconhece a falta e o cheiro da antiga casa. Foi um ano longo. E intenso. Retorno. As palavras são de vocês que vem aqui, eternos cúmplices. A música toca outra vez. Dançemos conforme...
Certas coisas devem ser feitas apenas quando acrescentam prazer e trazem algum valor agregado. Por isto tudo tem um ciclo, até a vida, e temos que respeitá-los, saber quando ele está cumprido e não perpetuá-lo a todo custo. As vezes não conseguimos e quando não conseguimos pagamos um caro preço por isso. Mas, na grande e absoluta maioria, isto é possível. O avesso já não me dá mais prazer. Tenho outros projetos e ocupações profissionais que são meus objetivos. As demandas pessoais não são minha prioridade, no momento. Deste modo, encerro aqui, a vida do avesso. Há textos nos quais fui absolutamente feliz ao escrever, de forma plena, outros que cumpriram o objetivo só de ocupar o espaço, realidade e fantasia. A cada um de vocês leitores não estarei mais pessoalmente nem em linhas, ou entrelinhas, onde cada um se recria. Agradeço cada manifestação generosa de leitura e elogio. Houve momentos únicos de recompensa emocional. Sou, devotamente, grato. Chegou a hora do outro lado do Avesso. Aos que quiserem continuar recebendo eventuais textos que faça, mandem um mail e colocarei em uma mailing-list. Talvez um dia, eu volte..
Nem foi chegando devagar como visita receosa, na porta. Não, foi logo mostrando a que veio, botando banca, delimitando território como bicho recém chegado, trazendo perigo com uma trovoada destas que só ronca por aqui, para mostrar as fragilidades da cidade, despreparada e descuidosa de sua beleza. A chuva repentina e sem sovinices surpreendeu as pessoas anunciando que o outono está caminhando para seu finalzinho de domínio, as folhas começam suas despedidas, feito notícia de gente que vai se ausentar.
Depois do aviso começamos a sentir que aquele vento de fogo, seco, ácido, duro, soprado feito açoite das redondezas da caatinga, trançado na poeira, cheiro de bosta de boi e velame, vai esmaecendo, trocado por outro mais ameno, úmido, com mais pétalas de água no seu embornal.
Ele vai chegando devagar, mudando as cores dos jardins, como se tivesse vindo de muito longe, das lonjuras que só os ventos e as dores podem vir, e fosse um bando anunciador do inverno. Nas ruas do centro as mulheres já exibem casacos que cheiravam a guardado de tanto esperar e os vendedores ambulantes já oferecem guarda-chuva, nas sinaleiras. O mingau de milho, ali na praça da Alimentação, torna-se quase uma obrigação na madrugada.
As lojas de roupa, me diz Dona Tércia, da Vest, já começam a anunciar as liquidações de sua moda de verão. A noite vai esfriando, pedindo coberta e paz entre os casais pois todo mundo sabe que não se deve brigar nos tempos de frio e por aqui o povo é mais sabido do que tudo, de todo povo desta boca de sertão, a gente que fica aqui entre o recôncavo e o semi-árido, com umas lapadas de vento marítimo, que viaja das praias da Bahia e se dissolve nos outros ventos, que todo mundo sente ainda que não se aperceba.
Há o espetáculo de olhar pela janela, manhã cedo, e ainda ver a neblina que levanta devagar, com preguiça de acordar e tristeza de separar-se da cidade, cortada em fatias pelos que correm nas avenidas e madrugadores do trabalho, e pelo alto dos edifícios, que Feira já vai por bem de ter uns trinta e cinco deles, fazendo recortes no horizonte, como se fossem as montanhas que não temos. E os corações abalados pelas aventuras do verão vão se entregando feito quixotes que desistiram dos moinhos de vento e buscando o aconchego dos amores de inverno, mais delicados e permanentes.
Nas casas, os chás e o chocolate quente voltam a mesa, o café na livraria Atlântica, de Romeu, e nas tapiocarias é um prazer quase irresistível. O foundee, um estrangeirismo de gosto adotado por muitos feirenses e o vinho, prometem ser a moda da estação.
Prova que estamos mesmo prestando mais atenção à mudança do tempo é que, ousadamente, o restaurante Tomatte Secco, anuncia um festival de inverno, com temporada de jazz e MPB, dando um refresco nos ouvidos exauridos de axés, pagodes e similares. E, vez por outra, eu mesmo tenho surpreendido a lua, exposta e nua, em plena tarde, perdida de amor pela vida nos antigos becos, ou quem sabe procurando uma pamonha de Noratinho, os vaqueiros e fidalgos do Campo do Gado, a Santana dos Olhos D¿Água.
O certo é que o inverno assume oficialmente lá por vinte e um de junho, mas já galanteia a elegância das mulheres, o verde do chão, as plantações das roças e a fartura do São João. Mas eu sei e sinto que ele é apenas o meu tempo.
A proximidade de homem e mulher costuma ser fatal. Vítima da fome ancestral e da necessidade de preservar a espécie basta rolar uma convivência ambiental que os vestidos se incendeiam e o destino biológico se cumpre, goste o papa ou não. Aliás, como diz uma amiga, se o papa for contra é até mais excitante. O certo é que não existe regra do lado debaixo do equador e para ser sincero em nenhuma outra localização geográfica.
Embora o ato não seja dos mais belos visualmente ele é compensado pelo resultado antes, durante e depois e uma trilha sonora que, apesar de repetida exaustivamente, tem um componente tribal capaz de mover ao êxtase até os menos entusiasmados. Esta atividade fornicativa, por assim dizer, além dos benefícios às indústrias, redes hoteleiras e comércio do banco reclinável, traz consigo toda uma operação ritualista e fetichista que incluem calcinhas pretas, dançar colado coração com coração se podemos dizer assim, promessas de nunca abrir mão daquele amor e pedidos que aquele beijo inesquecível não seja dado em mais ninguém.
Acontece que embora seja gênero de primeira necessidade e da pressão biológica que chama e, às vezes, grita, nem sempre o sistema pega no automático e ainda que não se fuja da luta nem tudo parece um impávido colosso. Não basta apenas desejo, paixão, amor, tesão e silicone para que um casal dê certo na cama. Nem entender só de astronomia, anatomia e enologia pois o mulherio botou na pauta do dia que o fundamental é a química. Às vezes, um detalhe, uma palavra inadequada, um gesto, uma tatuagem, põe tudo a perder.
Recentemente, tive um amigo, profissional liberal, que me procurou para conversar pois estava tendo problema na área do libidinoso. Recém separado me disse que andava rearrumando a vida, depois da tempestade econômica que é a separação, tocando a vida sem maiores aventuras. Havia decidido que passaria um longo tempo sem fixar-se com mulher nenhuma, não porque um segundo casamento fosse uma praga, como diz o representante de São Pedro, mas porque não queria nenhum desgaste emocional. Afirmou que mal dizia bom dia a uma mulher e ela já queria mudar de mala e cuia pra sua casa, ou o que restou dela. Decidiu então ficar mantendo relação só com algumas garotas de programa.
- Era tranqüilo. Elas fazem o que a gente quer, não exigem nada. Até esta última. Depois dela não consigo mais ficar com mulher nenhuma. Não funciono mais...
- Mas o que aconteceu?
- Cara, eu tava lá com a mulher nua, no embalo tradicional, me achando o tal quando ela parou no meio e falou irritada comigo.
- olha cara a gente tem de topar tudo, mas assim não dá não. Você arrotou transando comigo...
- meu amigo quando uma garota paga reclama que você arrota é o fim. Ou não é?
- Você podia ter dito que era porque estava bem alimentado. Brincadeira. Olha companheiro eu não sei não, mas por via das dúvidas é melhor você deixar a camisinha de lado e comprar uma caixa de Alka-Setzer...
O teu desejo de rameira, as violetas que nascem de teus cabelos, o jasmim de tua carne cheirando ao meu nome enquanto te lavas, as palavras que ficam prenhes de tua beleza e dança cada vez que te aproximas, é que faz assim, o mundo inerte e eu, apenas querer ser perene, nos teus devaneios...
Reza a lenda, se é que lendas rezam, que havia uma disputa entre as cidades-estado de Siena e Florença por limites territoriais. Elas combinaram que ao amanhecer, assim que o galo cantasse, um cavaleiro de cada cidade cavalgaria em direção ao outro e aonde se encontrassem seria a fronteira. Siena escolheu um galo branco, bem nutrido e Florença, um preto e mal alimentado. O de Firenze, esfomeado, acordou mais cedo, e seu cavaleiro conseguiu chegar até a vila do Castelo de Fonterutoli. Por isso a região passou a chamar-se de Gallo Nero e um galo preto ocupa até hoje os rótulos dos Chiantis, o mais celebre vinho da Itália.
Em tradições religiosas de vários países, o galo é uma criatura celestial e votiva. Simboliza a ressurreição solar e espiritual e seu canto anuncia o novo dia após um período de trevas. Nos países latinos é tradição popular a "Missa do Galo", numa alusão a lenda que conta que a única vez que um galo cantou à meia-noite foi na noite do nascimento de Jesus. Mas, sincrético, na África, ele é o animal preferido de dois dos sete orixás do Vudu: Papa Legba e Ogun. Papa Legba, ligado a São Miguel e São Pedro, é o guardião, o desenvencilhador das encruzilhadas do mundo. No Brasil, o galo é o omalá (conjunto de alimentos destinados ao Orixá ou divindade da Umbanda) de Oxun.
Reproduzido na arte cerâmica de Portugal e Itália o galo está ligado a lendas populares e na França ele é o símbolo nacional por excelência. Na poesia é o astro do mais famoso poema de João Cabral de Melo Neto, no qual um galo sozinho não tece a manhã. Certo que os galos devem ser perdoados por acordarem mais tarde, até porque passam o dia em exaustiva maratona sexual, que exercem sem pudor, satisfazendo de forma hedonista seus desejos mais carnais, com uma e com outra, quando não com alguma violência e ruidoso ritual, sem preliminares e conversa fiada. Verdade que apesar de repetitivo o ato tem a rapidez só um galo tem, embora alguma mulheres reclamem em seus parceiros da fugacidade do evento. Apesar disto não é fácil a vida de galo, com seu harém sempre ameaçado, sujeito a traição à menor desatenção ou falha no serviço doméstico, pois sabemos que as fêmeas não costumam perdoar se o carnê não está em dia.
Nem todos os galos, entretanto, têm final feliz. Morei em um condomínio, com muitas casas, todas próximas. Ganhei um galo de um paciente e o levei para casa, dando-lhe o nome de Chico Mendes, que havia sido morto. Chico tinha um relógio biológico próprio, cantando feito um desesperado durante a tarde e a noite e silenciando ao amanhecer. O que começou como insatisfação entre os vizinhos evoluiu para reunião extra de protesto contra meu galo.
Compreendendo que a sociedade não estava preparada para um despertar ecológico decidi levá-lo para a roça. Chico passou a reinar soberano, verdadeira estrela, no quintal lá de casa. Fim de semana fui almoçar com minha mãe e ela serviu um prato delicioso. Quando perguntei se era de sua criação, ela respondeu que era o Chico Mendes, que andava muito abusado. A história novamente se repetiu, para minha consternação, mas ficou a lição: toda vez que você tiver por aí cantando de galo, seja você presidente, ou o que for, é sempre bom lembrar que tem alguém amolando a faca para preparar o almoço de domingo..
Os extremos me margeiam e dilaceram. Não há fios invisiveis que me contenham. Nem redes que me amparem. Teus braços não oferecem mais proteção. Me fita, apenas, a tua face dura. E o mundo oscila...
O melhor de uma viagem, às vezes, é o que sai errado, o inesperado, o que não foi planejado nem pode ser dividido em nove vezes no cartão, nem rende milhagem. O mico é, às vezes, mais atraente que os cenários paradisíacos, as comidas típicas e as fotografias obrigatórias. Com a vantagem que vergonha não pode ser colada no álbum, nem filmada. Fica na memória para ser contado com algum grau de auto-ironia e complacência.
Fonte inesgotável de micos estilo king-kong são as viagens ao exterior. Desconhecendo os costumes e a língua estamos sempre à beira de um conflito internacional. Lembro que éramos um grupo em três carros alugados, indo ao Vale do Loire, na França, quando paramos em um pedágio todo diferente, com uma cesta, que ninguém sabia como pagar. A fila atrás de nós foi um vexame quilométrico, só resolvido quando um enfurecido francês desceu do seu veículo e nos ajudou, mais por impaciência do que por solidariedade e com aquele olhar que te faz sentir um brucutu.
Também nesta viagem, todos com os melhores trajes, as mulheres de longo, acabamos espremidos dentro de uma cabine telefônica, em frente ao cassino de Monte Carlo, para passar a chuva. Isto por termos entrado no prédio de estacionamento pelo guichê de saída e ficarmos meia hora aos gritos pelo interfone, com o computador, até que - embora eu desejasse que fosse a Caroline de Mônaco-, apareceu um guarda e numa língua que nem posso chamar de civilizada resolvemos o problema após ameaça de prisão. Até porque viajava conosco uma velha senhora, mãe de dois dos colegas e que, desbocada feito uma rameira, xingava o guarda de todos os palavrões que a última flor do lácio já criou.
Tenho um conhecido que ao hospedar um americano o ensinou dizer "você é boiola" como se fosse How are you, e o miserável saiu a cumprimentar a todos, inclusive o pai do colega, e uma amiga que, ao olhar um cardápio floreado, indecifrável, pediu para comer o dono do restaurante.
Há os desastres alimentares porque, economizando, ou exagerando, há horas em que a fome fica maior que a dignidade e se come qualquer coisa. E situações desconfortáveis, como um parceiro de viagem que fez redução do estomago e teve uma ressaca intestinal após comer um cordeiro patagônico com javali, prato que imagino ter sido o preferido dos tiranossaurus. O mesmo parava a Van do grupo- aterrorizado- durante passeio em Mendoza, a cada ação das suas enzimas digestivas.
Mas, impagável, somos nós tentando falar espanhol. Costumo ficar calado ou falar meu arcaico português da forma mais lenta, se possível que dê tempo até dos hermanos abrirem o dicionário para me traduzir. Mas o brasileiro aprende "saca la foto", vira poliglota e a partir daí fala uma língua de fronteira, indecisa, embaralhando terminações vocais, num mimetismo polifônico indecifrável. Ou falam português bem alto, mas com o sotaque local, obrigando-os a ouvir quero "dôs", como se dois fosse incompreensível.
Recentemente, na Argentina, estava na portaria do hotel, quando um cliente começou uma discussão. Alto, suando, gesticulando como Maria Bethânia cantando Carcará, o brasileiro vociferava contra algo no dialeto de Tarzan.
- Você não intiendê? Não falar mí língua?
O porteiro, símile de Rocky Balboa, balançou a cabeça e foi cuidar da vida. A mulher, que aguardava com os filhos, sugeriu que ele telefonasse para o guia da agência. Foi aí que o marido atravessou o lotado saguão, aos berros, gesticulado com o dedo mínimo e o polegar abertos e os outros dobrados, em direção ao apavorado funcionário.
- Eu quero um orelhone, eu quero um orelhone...
Se não foi deportado deve estar lá até hoje esperando o porteiro entender.
As mulheres que já não estão na faixa etária do, digamos, sub-30, compõem o que a demógrafa Elza Berquió, do IBGE, chamou em seu livro, de Pirâmide da Solidão. São mulheres autônomas, profissionais liberais, com independência financeira e competência sexual, separadas ou solteiras, que não encontram sua metade da laranja, nem um homem pra chamar de seu.
É certo que o início cada vez mais precoce da vida sexual feminina, além do impacto no aquecimento global, ampliou a oferta no mercado da sedução e do acasalamento, facilitando aos homens resolverem com duas de vinte, e módico investimento, as necessidades dos quarenta, mas não é só isto que está deixando estas mulheres sem parceiros para reconstruir uma família.
Decerto, também, que não é só culpa do papa de convicções neanderthais que disse ser o segundo casamento uma praga social, mas a verdade é que passado a fase do canibalismo e desforra -ou atualização muscular como dizem algumas-, sexual que as mulheres costumam vivenciar na pós- separação fica quase impossível encontrar um homem que esteja disposto a construir uma relação permanente mesmo com casa, comida e roupa lavada. Aliás, a famosa atriz Zsa Zsa Gabor costumava dizer que não perguntassem a ela nada sobre sexo pois sempre fora casada.
Estas mulheres sozinhas que rolam pelos sites de encontros, vernissagens, lançamentos da moda, se não esperam mais o príncipe no cavalo branco, não perderam a ambição suprema de suas almas, que é o amor. Elas se cuidam, malham como atletas, tratam-se como modelos, usam os melhores cremes e, vá lá que seja, usam um botox aqui e ali. Vestem-se com elegância e são capazes de conversar sobre o declínio da civilização ocidental com a mesma facilidade que trocam uma dieta infalível, ou uma receita diet.
Livres e experientes são capazes de prometer e cumprir com esmero os desejos masculinos, mas exigem em troca companheirismo, bom gosto, indispensavelmente uma conversa inteligente, se possível alguma habilidade culinária, sensibilidade e - que elas nunca deixarão de gostar- firmeza de intenções. Enfim, um parceiro master-plus.
A diversidade de informação, ganhos e liberdade tem elevado o padrão de satisfação das mulheres, fazendo com que os homens, mais lentos nas adaptações, como dinossauros urbanos, tenham dificuldades em conquistá-las. Como não há bula, nem re-treinamento, os homens continuam abordando erroneamente as mulheres com padrão de exigência mais elevado.
Recentemente, almoçava com um grupo e uma amiga, médica, viajada, bem sucedida, mantinha agradável conversa sobre cinema e literatura, dois interesses que temos em comum. Até que o papo tomou o rumo dos relacionamentos e a queixa geral foi a dificuldade, a escassez de homem no mercado, corroído pela banalidade e pela crescente onda gay. E, entre um suspiro de desilusão e riso, me contou sua última experiência.
Estava com amigas em um aniversário, elegantíssima, vestido longo, a base da taça de vinho presa entre os dedos, como convém, quando foi apresentada a um homem que lhe pareceu atraente, tendo iniciado aquele rito de investigação desinteressada e casual que faz toda mulher antes de aceitar a cantada. A coisa já tinha meio caminho andado, embora ainda não o suficiente para dilacerar o vestido, quando ele atirou no próprio pé.
- escuta, adorei te conhecer, porque não saímos amanhã pra comer um caranguejo na Cabana da Cely?
-Agora imagine meu amigo, eu, depois deste investimento todo que fiz em mim, no sol de meio dia, com um porrete na mão- tac, tac, tac-, quebrando patinha de caranguejo, toda lambuzada? Nada contra os braquiúros mas no primeiro encontro? Que futuro isto pode ter? Com um mês eu vou tá onde? Encarando a maré vermelha e me acabando em cima da mesa no pagode em Cabuçu?
Nunca mais reclamei por ser alérgico a caranguejo. Deus, agora creio, realmente escreve certo por linhas tortas...
Ando feito dicionário ao avesso. A cada dia desaprendo uma palavra antiga. E nada escrevo. Sempre escrevi, como se fossem meus, os olhos de uma mulher. E, já não sei, em que direção elas olham...